EU SOU XAMÃ
I CHAMA
Desde
que tenho lembranças as mais belas se passam num lugar chamado Jardim da
Perfeição, neste lugar qualquer um se situaria além do tempo e espaço, lá tudo
era imensamente lindo, perfeito, flores de todas as cores, tamanhos e
fragrâncias, árvores dos mais diversos tipos, frutíferas ou não, suas passagens
e caminhos todos extremamente pensados com certeza projetados, imbuídos a fim
de termos a concepção de um Todo. E eram para mim mais belos do que agora,
talvez por ter a impressão da juventude. Lembro que certa vez conversando com
meu Pai e sentindo todo esse mundo ao meu redor perguntei-lhe: - Pai como nós
seres humanos conseguimos elaborar um trabalho tão sublime, além, muito além de
qualquer palavra? Sorriu, era seu costume, e falou: - É bom sentir não somente
com os sentidos, mas, com o mais profundo eu que há em cada um de nós, observe
tudo aqui tem seu lugar, seu tempo, tudo foi engendrado para que intuíssemos o
Belo em sua magistral demonstração de seu poder em nossas mentes, ou seja, a
contemplação. Aqui meu filho não existe acaso, na verdade em nenhum lugar há
acaso tudo tem de fazer sentido, tudo há de ter um por que.
-
Mas Pai, como então adquirir conhecimento, aja visto, ser necessário para tal
Obra? Além disso, como se pode entender o inicio de tal conhecimento? Onde tudo
começou realmente?
-
Meu Filho tudo a seu tempo, iremos ter muitíssimas conversas, e elas
responderam seus questionamentos. Não se preocupe, agora andemos em silêncio,
apenas veja com os olhos da alma.
(Foi
quando senti dentro de mim uma vontade muito profunda de preservar essas nossas
conversas e idealizei uma maneira em que as palavras pudessem ser pronunciadas
por quem viesse a te-las novamente, na verdade repeti-las, assim lendo como ficou
sendo chamado, independente de quem, todos que soubessem assim como um código
iriam interpretar e entender o que estava escrito, isso pareceu a mim um grande
desafio, mas, depois de algum tempo desenvolvi e consegui, a prova são essas linhas
que agora você também lê.
Hoje
sou um senhor de meia idade ciente do tempo e espaço, já tenho vivido alguns
dias, mas, meu Pai, Ele é Antigo de Dias isso eu sei. E com isso tornei-me para
meu Pai sua Palavra e Verbo. E farei aqui um resumo somente isso. Sendo que
algumas palavras meu Pai consentiu que escrevesse outras continuarão a serem
passadas de geração em geração somente pela boca e guardadas em nossos corações.
Eu Filho sigo suas ordens até o dia que eu serei Ele e assim farei com meu
Filho e meu Filho fará com sua descendência pela eternidade sem fim. E, assim
se deu.)
Eis
o relato dessas histórias (conversas), escreverei suas respostas assim como
outros questionamentos de forma que o entendimento vos fará saber a verdade ou
não):
Um
dia tendo encontrado meu Pai de bom semblante falei-lhe: Pai a tempo tenho
escutado e reservado como falaste algumas palavras e julgo ter algum
conhecimento tanto que foi passado por Ti, tanto como aprendi durante a vida,
por isso permita-me perguntar: - O que somos realmente? Eu sou quem? Estou em
mim, ou eu sou só eu? Mas, como? Como saberei que eu sou eu?
- Meu filho és aquele que levarás todo nosso
conhecimento, por isso irei responder-te. Pergunto a ti meu filho: Quando se é?
E quanto se está? Qual a diferença?
–
Se estou em mim ou se sou em mim?
– Exatamente.
Deixe-me
contar uma passagem antes: Certa vez meu filho fui chamado atenção pelo um episódio
no qual alterquei com meu irmão;
-
Você está nervoso? Disseram.
Respondi;
- Não estou nervoso, eu sou nervoso? Agora explique ser e estar.
-
Meu Pai, assim entendi: Ser é a essência, é universal, e estar é somente um
estado de existência. Assim se é.
-
Muito bem meu filho. Consegues como tu dizes transcrever nossas conversas? –
Sim meu Pai, agora posso registrar o que falamos. Então vou aproveitar para pedir-te
que doravante escrevas conforme aquilo que falarmos e somente o que eu ordenar
não escreva. Pois serás minha Palavra, meu Verbo, meu Filho, aquele que na
frente irá e executará o que tenho dito.
Filho
entende nunca fomos ou seremos simplesmente somos, sabes tu que muito outrora
aprendemos a nos comunicar, ou seja, éramos animais falantes, mas nos tornamos
seres pensantes.
-
Pai como se deu tal?
Filho
escreve, pois, EU SOU XAMÃ, vosso Pai, e agora depois de tantas eras chegou a
hora de escrever, pois temos os meios os quais nossos antepassados não tiveram.
Escreve meu filho, pois Eu Sou Xamã ordeno que depois de escrito guardeis com
vossa própria vida estas palavras que vos falo. Guardei e a levais no vosso
coração por que são elas que farão ficar vivo e sereis ao seu tempo como eu
Xamã e assim passar-se-ão eras e mais eras mas estas palavras permanecerão como
lei diante de nossos filhos e filhos de nossos filhos, pois Eu Sou Xamã vosso Pai assim vos fala.
Não
tem como contar as voltas para trás e saber qual tempo foi, mas, faz muito
tempo. Havia um lugar que está somente em nossas mentes, não um lugar comum,
descreveria como um lindo jardim que igual entre nós não há (Jardim da
Perfeição). Um lugar onde todas as sementes se encontravam e vicejavam em suas
estações, frutos abundantes pastagens sem fim, animais selvagens lutando pela
sobrevivência, uma luta, porém equilibrada e por que não dizer pacifica. Nossos
antepassados encontraram ali abrigo e alimento, ali nasceu singelamente nossa raça,
nem sei se éramos. Sei, no entanto, que nossa historia volta até lá. E de lá
meu filho que vos falarei. Somente escreve, pois Eu Sou Xamã vosso Pai.
Por
que Eu Xamã tirei-te das trevas e lhe dei a luz, fui eu Xamã que dei as
sementes, a arte de pastorear e domar animais, fui eu Xamã que de suas grossas
mãos ensinei-te a fina arte da cerâmica, depois a construir as habitações, fui
eu Xamã que ensinei os números que conheceis e usais, e com eles o tempo e os
dias apareceram. Eu Xamã dei-te a indústria da lã que nos conforta e veste. E
claro a nobre arte dos metais as quais temos domínio e que nos fazem sermos
civilizados. Acima de tudo meu filho temos conhecimento. Conhecimento este
dividido entre três saberes, sendo o primeiro perscrutar (Filosofia), o segundo
o de apreender (Ciência) e o terceiro o de agradecer (Religião). Todos esses
saberes tiveram uma só origem, pois despertaram do mesmo acontecimento nenhum
antes, nenhum depois. Seguindo somente a mesma sequência assim meu filho atente
a mim, pois quem vos fala é Xamã vosso Pai. Nossas vidas são uma corrente e elos
nos unem, de geração em geração nosso conhecimento avança e depois de nós ainda
seremos, pois o TODO É, nem foi, nem
será nada que Nele já não esteja contido.
Como
tenho dito era um magnífico lugar, escreve meu filho, pois eu Xamã vos fala. Igual
a esse lugar ouso dizer não houve nem haverá em todos os dias que seres como nós
andarem sobre esta terra. Escreve meu filho, quero agora descrever esse lugar e
mais tarde entendereis por que. Vindo do nascer do sol deslizava um rio que num
imenso vale cortava as pastagens sem fim, serpenteava até ficar mais estreito
ao lado de dois maciços, escarpas que pareciam terem sido quebradas a mão, em
seu sopé resistiam algumas arvores e arbustos algumas chegando até rio, tudo parecia
fluir, animais pastando uns sendo presas outros predador, nesse mundo de sonhos
e abundância nosso primeiro Pai atentou
como as coisas pareciam ter ciclos e por que elas eram assim como eram. Até que
certo dia em um final de tarde, lá estava ele, olhou para cima viu o céu, neste
dia o céu parecia ser de um azul intenso, mas, se via ainda os raios do sol,
nesse cenário começa nossa história. Na verdade ele se sentia responsável por
todas as vidas que ali estavam aqueles seres um pouco mais que animais, quem
sabe animais que pensam, que vivem em acordo mútuo que transmitem entre si seu
saber e cria seus filhos como maior dádiva. Sim ali estavam finalizando a
coleta de algumas frutas da época. Ele continua a olhar e eis que acima das
escarpas começaram a surgir nuvens e mais nuvens cada vez mais espessas indo
para um azul escuro e cinza forte, sem dúvida viria uma tempestade, o vento já
aumentava e nosso Pai deu um grito alertando a todos para correr em direção da
caverna antes da tormenta. No fundo ele sempre teve medo das forças da
natureza. ( - Filho óbvio que alguns termos descrevo como vejo e entendo, não
necessariamente como nosso primeiro Pai descreveu). Os primeiros pingos se
fizeram presente e a carreira foi grande, pois se temia a escuridão, esse
também causava temor não se conhecia a Luz. Mas estava perto desse medo acabar,
muito perto como veremos. Todos chegaram à caverna e a tempestade chegou com
toda a força. Do fundo da caverna aquelas seres amontoados agarrados uns aos
outros não sabiam o que fazer e por que tanta demonstração de força e poder.
Nosso primeiro Pai dirigiu seu olhar para a entrada da caverna algumas vezes
aquele clarão iluminava toda a boca da caverna ele temia como assim temiam
todos, mas perscrutava, por que. – Por quê? Por que isso acontece tem alguém
por trás disso? Ou não? Desprendeu-se dos demais, lentamente foi se dirigindo
para a entrada, seu coração querendo explodir, mas, sua vontade era maior,
muito maior, ( - acredito tinha uma força maior que ele que o compungia ele não
sabia o que, mas que tinha ou haveria de ter) ali quando chegou na porta da caverna sentiu o
vento querendo o empurrar para dentro e ele resistia, ali meu filho, nosso primeiro
Pai olhou rio clareado pelos relâmpagos, as árvores sendo chacoalhadas para
todos os lados, viu os animais correndo, viu as pedras descendo com a
enxurrada, viu os raios quebrando as escarpas, havia um sincronismo, parecia
haver um ritmo, tudo parecia se encaixar fazer sentido, era inevitável era belo
demais, certo demais, fantástico, era sublime sem palavras, existia ali alguma
força se expressando se manifestando, então ele se viu como um estranho em seu
lugar, esse lugar era de mais alguém, quem sabe um alguém muito mais que ele. -
Mas quem? Aquele vento aquela sensação, era magnífica, nunca sentira tão bem,
tão feliz, indescritível, era demais, e extasiado com tudo sentiu-se cada vez
mais leve, sua cabeça rodava sentiu-se um pássaro, parecia voar, tudo em sua
volta começou a girar a girar, o mundo, as coisas pareciam estar cada vez mais
devagar tudo parecia estar em consonância, tudo parecia ser uma só coisa ele
era parte e também fazia parte um momento sem igual que foi aumentando e
aumentando seu sentimento foi crescendo ele já não sabia onde estava o que era
se era, sentia-se como uma folha caindo, um vazio que não pode se completar,
mas, ele estava lá, ele queria mais e queria mais, e nesta sensação sentiu-se
mais próximo das forças que tanto temia, quando não precisava temer, era só
viver e se viu com o TODO pela primeira vez. A primeira vez como Ser pensante
não mais como animal falante. Filho escreve, pois eu Xamã ordena, escreve, pois
desejo que todas as gerações venham, a saber, que vos ordenei e entendam da
onde viemos e nosso propósito neste terra que vivemos. Meu filho, continuando
ele Nosso primeiro Pai a estar na sua contemplação chegando ao sublime
conhecimento e elevando sua mente com a mente que estava com Ele e era Ele, viu
toda a Terra e se extasiou quando percebeu quão pequeno era seu entendimento
diante dos Céus dos Céus e quão grato podia ser com aquele momento. E refletiu
devo ser grato a quem. Quem esse que abriu seus Céus para esse ser tão pequeno.
Que força é essa capaz de trazer-me a lugares inefáveis e Inexplicáveis onde
nem mesmo o tempo se faz sentir. O céu a terra o tempo nada era o mesmo, ele
mesmo se revelou. Ele meu filho esteve até nosso tempo, pois tenho dito ele nos
viu e dá testemunho do que era, do que é e do que será. Assim ele foi voltando
a si e as coisas começaram a rodar normalmente, ele foi percebendo onde estava
e do que fazia parte, uma unidade de muitos, mas que é um TODO.
(Essa primeira compreensão
das coisas como são o fizeram mudar, pois tinha visto o que era indizível, não
havia maneiras de se fazer compreender e dividir, pois os seus semelhantes
ainda eram muito pequenos em entendimento, e ele teve de esperar muito até
poder transmitir a sua descendência. Mas, nesse grande momento ele revestiu-se
de uma coragem uma determinação acima do aceitável ele voltou dos céus e
recebeu dele sua coragem e manifestou isso na nessa mesma hora.)
Meu
filho, foi ali quando voltou a si que ele saiu correndo e antes que a chuva
apagasse olhou a árvore ardente em chamas que ardia chamuscada pelo um raio
pegou uma lasca em fogo e trouxe para dentro da caverna e disse: - Aja LUZ e
gritou: Nunca mais haverá escuridão e a luz se deu, doravante venceremos nossos
temores com a chama dos céus. Ali no pórtico da caverna que era nosso primeiro lar
diante de todos, nosso Pai se tornou Xamã o primeiro a compreender que o
conhecimento sempre está em todos os lugares, nós é que devemos revelá-lo.
Mesmo assim ele teve receio como se tivesse se
apropriado indevidamente de algo, pensou na ira de alguém, se esse alguém
viesse reclamar; - Quem pegou minha chama e a mantém? Quem se atreve a atentar
contra mim? Receava de ela querer apagar e voltar às trevas, e assim a
alimentava, e ainda pensou em como retribuir tal bondade, e começou a também
colocar caças ao fogo e gostou do cheiro, um cheiro repousante atraente, um
cheiro que levava aos céus seu presente, aí nessa comunhão com O TODO, chamou
esse SER esse princípio de DEUS, pois Ele é a própria oblação e nada mais justo
de que retribuir de todo o coração a quem lhe ofertou. E com Sua graça venceria
todos os seus medos e com seu calor se manteria, alimentaria e acalentaria sua
prole. Batizou-o então por fogo. Pois, a Luz gera calor e mostra o caminho para
os homens.
Mas, todos os que observavam nosso Pai ficaram
espantados com tamanho poder e lhe renderam homenagens, somente ele deveria e
conservaria a chama acesa. Ele então não era apenas um líder, era chefe
(líder), era descobridor (filósofo), era sacerdote (religioso), tornou-se Xamã
por outorga dos Céus e assim se deu.
II CHAMA
Era difícil conservar o fogo, ele era voraz
precisava ser alimentado direto. Mas, como preservá-lo? Como reacender caso
viesse a apagar? Como criar, como fazer que o fogo aparecesse, como? Além de
que, às vezes precisaria ir mais longe e como levar o fogo, pensava e pensava
olhava o fogo e começou a observar que a lenha quando ia apagar se assoprando
voltava a se encandear. E assim ele tentou, tentou e continuou tentando
reproduzir o fogo somente das lascas e gravetos, observou que ardiam quando
esfregadas muitas vezes e continuou a esfregar até sair às primeiras fumaças
que o lembraram das chamas quase extintas então ele soprou e soprou e de
repente eis sua vitória seu grito ecoa até nós, um grito sublime único, a
conquista do fogo, nasce à ciência. O homem controla e reproduz o fogo. Até
então sua maior Arte brota da arte da observação. Não mais qualquer homem, mas
o homem, O HOMEM LUZ.
Assim,
ele dominou a arte do fogo. E seu êxtase era imensamente grande gostaria de
agradecer a alguém, então ele agradeceu aos Céus, agradeceu a Deus a quem
personifica e revela-se para ele. O singelismo do fogo era compartilhado com os
dos seus, mas, com a graça comungada com os Céus oriunda do Ser Supremo, O Ser
Acima dele. E assim ele compartilhava alguma caça em datas, quando sentia a
presença Superior pairar sobre sua cabeça. Aprendeu a comungar com os seus
semelhantes o mesmo sentimento A Presença embora não vista, mas, sentida de
Deus.
Esse
homem, o homem Luz perpetuou e outros vieram e lhe rederam mais homenagem, e
sua grandeza cresciam e cada dia que passava mais se consolidava como Xamã. E
em troca de tributos ensinou a arte do fogo aos escolhidos e que tais
mantivessem com muito cuidado a arte nobre de revelar a Luz.
Meu
filho, assim nosso primeiro Pai se tornou muitíssimo grande, em suas noites de
ensino queria ensinar sentia esse desejo absolutamente natural e nas paredes
das cavernas desenhava, observe que até hoje encontramos tais manifestações de
conhecimento e arte agora visual. Tanto que ainda somos capazes de interpretar
tais desenhos. Ficou refém de si, do fogo, mas, era só o começo. Continuava a
passar horas olhando fogo crepitar, não entendia como se dava, como se
manifestava, que forças estariam por trás, mas era apaixonante e confortante
sentir seu calor.
Nessa
época ali nosso primeiro Pai, olhava as estrelas e sentia a necessidade de
entrar em contato com os Céus queria sentir Deus nas alturas como na primeira
vez, e repetia isso todos os dias, nasceu as orações. O homem entrando em
contato com seu ser Superior e crendo em suas respostas, nasceu a Fé. A Fé em
Deus. Não havia como negar seu sentimento, alguma coisa dentro de si dava
testemunho que ele tinha que se comunicar falar com Deus, não o conhecia, mas,
sabia de sua existência. Seu eu corroborava com ele e ELE comungava consigo.
O
homem assim teve consciência de si e instantaneamente de Deus, pois um não É
sem o Outro, criador e criatura a mesma imagem a mesma essência, ou seja, a
ciência de si, diferentes em grandezas, entretanto, partícipes de um TODO
MAIOR, a unidade e o todo se completam onde há um há o outro.
III CHAMA
Filho
escreve não se detenha somente escreve. - Assim farei meu Pai. Com o
conhecimento do fogo e da observação aprendeu que sapecando algumas caças e
frutas ou raízes o alimento ficava melhor, muito melhor para comer.........