quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Meu Infarto

MEU INFARTO













“O HOMEM, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação.”
                                                      JÓ 14:1



      Lourival Caetano

MEU INFARTO
De todas as experiências que se tem na vida, a própria existência da vida quando confrontada com seu possível fim, se acerca de questionamentos e por si só revela as mais diversas razões para se manter a vida como uma batalha que se tem de vencer.
Acredito que na maioria das vezes somos teimosos e cremos ser mais que humanos, que tudo podemos. Mas, quando esses valores são postos em prova sentimos certa frustração, pois, somos nada mais que seres mortais e bem mortais. A proximidade com o nosso fim deixam-nos perplexos, impotentes e nada a fazer. Quem sabe exercer nossa piedade e ver essa piedade em nossos amigos, conhecidos, parentes e até desconhecidos de certa forma nos conforta. É ai que saberemos o quanto somos ou não queridos, e quem são nossos verdadeiros amigos. E claro, exerceremos a Fé. Não há como não pensar em Deus, destino, futuro, família e afins. Não há certeza, só esperanças que promovem as mais diversas manifestações no seu interior numa busca para respostas sem respostas, em que cada pessoa que nos falar terá um argumento diferente e confuso e na grande maioria atribuindo as causas como vontade de Deus. Óbvio, acredito em Deus, no entanto, que as causas são somatórias de um período de abstinência de hábitos corretos e uma maneira de viver mais próxima da realidade que cada indivíduo tem de ter consigo mesmo e que não busca. No meu caso, não foi diferente, e o resultado foi um infarto expressivo que vai levar-me a uma cirurgia de coração com pontes bypass. De um jeito ou de outro, é uma luta pela existência, pela permanência, por valores e pela pugna a depressão que se acerca. As lágrimas suas as lágrimas de tantos, as preces suas as preces de tantos. – Quanto é necessário? Realmente é difícil, somente nossos sentimentos, quem sabe os mais nobres sentimentos louváveis nos dão a serenidade para continuar e continuar sempre.
Irei relatar minha experiência, minha particular maneira de estar nesse universo de paciente, em que aos profissionais de saúde e atendimento pode caracterizar rotina, mas, para esse que escreve é uma aventura num mundo estranho e em que não se quer passar várias vezes, basta às necessárias.
No dia 04 de Fevereiro pela manhã acordei com uma dor no peito, que foi aumentando, mesmo assim, fui trabalhar como de costume as 06h30min estava na Obra. Chegando lá verifiquei meus e-mails, e por curiosidade pesquisei; dor no peito e falta de ar, resposta, corra pro hospital, assim, não perdi tempo e pedi para meu auxiliar de engenharia que me levasse ao hospital. Aí começa minha história de infartado. Primeiro documento endereço etc, etc, e você lá com uma dor no peito que quer te matar, mas você agüenta pega sua ficha e vai aguardar sua vez, “epa” não vai dar pra agüentar a chamada, de repente a porta se abre e lá fui eu junto com o senhor da vez, pedi desculpa e falei pro médico; olha estou com muita dor no peito e falta de ar tem alguma coisa errada, por favor, dê uma olhada. Aí passou morfina e um monte de pílulas e fui à enfermaria, onde tomei medicação e colocaram um escalpo na minha mão esquerda, e fui fazer um ECG, raios-X do coração e exames de sangue, os dois primeiros foram rápidos, mas o exame de sangue resultado somente depois de três horas. A dor diminui e voltei para a Obra. Quando se aproximou das dez horas a dor voltou e voltei ao hospital desta vez sozinho. Entrei fui ver o resultado de sangue e não estava pronto, voltei à espera, mas a dor continuou a aumentar, e aí novamente entrei com o paciente da vez pedi novamente desculpa, mas que não podia mais agüentar. Foi quando agora médica pegou meus exames e disse espantada: - O senhor esta infartado. Levantou-se e falou; vem comigo. E lá fui eu prá reanimação, foi quando me dei conta da situação e não era boa, imediatamente tomei tanta da coisa, liguei pra casa e pro Eng. de Segurança informando as minhas condições. E ali foi minha entrada num mundo chamado paciente e ter o contato de como as coisas funcionam nesse tão particular universo hospitalar. Bem, fora a correria das enfermeiras, que chega ser interessante, é um conjunto e uma profusão de gente em sua volta, mas, elas têm em comum os gestos, trejeitos e um vocabulário próprio. Diga-se de passagem, pareceu-me existir uma concorrência, talvez nem elas se dêem conta, porém, sempre terá alguém de alguma maneira chamando a atenção para si, quer seja na maneira de atender, comportar ou ainda em suas vaidades; roupas, sapatos, bolsas e acessórios. Bem, não posso esquecer-me do médico, sim aquele ser que assina e confere e que todos babam por ele (parece que ele também gosta), assisti tudo e tudo lhe é normal.
Bom, voltemos ao quadro clínico. Estabilizei e ao anoitecer fui levado a UTI. Um grande salão com quarenta leitos, um verdadeiro formigueiro, e digo funciona, ainda bem, para nosso bem, funciona. Assim como na reanimação aquele universo era conhecido somente nos contos e prosas e que agora era minha realidade, eis me aqui entre tantos iguais e desiguais, um a mais nas estatísticas. Creio que meu prontuário me acompanhou e comecei a entender a rotina desse universo, como também as dores de meus companheiros, ali entre conscientes e inconscientes, entre alguns que ficam e alguns que vão, uns para enfermaria quem sabe casa, outros ainda para sua morada eterna. Mas, tudo é regido pelos horários, turnos, remédios, banhos e a tão esperada visita, como é bom ver conhecidos e nossos entes queridos, é uma sensação de conforto, de alguém se importa conosco e nos ama. No entanto, nem todos têm visita pelo simples fato que ninguém vem vê-los. E se vê a dor de abandono, mesmo assim continuam sendo assistidos pelo Hospital, pelo menos um está lá há anos.
Bem, a mesma maneira que já tinha percebido na reanimação, confirmei na UTI, as enfermeiras, técnicas de enfermagem mostram através de seus adereços e acessórios quem pode mais, algumas querem literalmente furar o piso com seus sapatos e sandálias e colocam suas bolsas nas bancadas como se fosse exposição, uma vitrine de uma loja, e lógico todas maquiadas, com raras exceções. E os médicos de sapatos social em seus lugares como tronos, conferindo e conferindo, creio até que deveriam dar um oi mais caloroso aos pacientes que tal entrasse também na rotina para que nós, pacientes, tivéssemos a possibilidade de vislumbrar a melhoria de cada um. Digo é muito importante ser pelo menos notado e conscientizado das suas reais condições com certeza deve haver um tempo para tal. Não sou engenheiro de segurança, mas sapatos de solado de couro e saltos altos com certeza não são indicados para tal área hospitalar, além de que por ventura aconteça um sinistro só irá atrapalhar. Porém, as coisas funcionam de uma maneira geral o suprimento sendo abastecido continuamente e um vem e vai interminável, e reafirmo fico satisfeito por termos esse serviço. Passei quatro dias nessa UTI e fui transferido para outro Hospital, pois teria de fazer cateterismo a ali não se faz.  Lá fui eu de ambulância para a enfermaria desse outro hospital diz que, referência em cardiologia, fui recebido por uma enfermeira que pediu para que aguardasse o médico que apareceu dois dias depois, nesse ínterim, era meu desejo sair dali pois as informações eram muito desencontradas. - O aparelho estava ou não danificado? Quantas pacientes estavam aguardando tal procedimento? Falavam em trinta. Mas, a enfermaria era pra quatro pacientes e conversávamos sempre sobre o destino e a vontade de Deus como referência, vários credos, várias maneiras de se interpretar a mesma coisa; todos ali eram infartados e aguardavam os acontecimentos, cada um a seu modo. Eu com certeza não podia esperar e com muita alegria recebi a notícia que a empresa me transferiria para outro hospital. Ainda passei três dias ali. E assim se deu, lá fui. Pelo menos tinha um médico que me acompanhava. Chegando nesse hospital não houve mudanças substanciais, a mesma comida, o mesmo cheiro, as mesmas roupas, tudo era quase o mesmo a não ser fisicamente. Lá se foram mais três dias e fui pra casa, mas antes ainda fiz exame ECG e Eco cardiograma. Fiquei feliz por ir para casa nesse tempo, tive a companhia de amigos, colegas de trabalho, a empresa e minha família que tanto demonstrou amor por mim. Quero realmente agradecer a todos com sincero e forte abraço do fundo do meu coração. Mas, a vida continua, fiz o bendito cateterismo, e levei o resultado ao médico, não deu outra, duas pontes serão necessárias, confirmado por outro médico, agora me resta aguardar a data para a cirurgia. Estou muito ansioso, pois, quero minha vida de volta, e a terei, essa deve ser a vontade de Deus, que assim seja.
Bem, depois de algum tempo, que na verdade serviu para minha recuperação parcial recebi sinal verde para realizar os exames pré-operatórios a qual levei ao médico e acertamos a data da cirurgia. Houve alguns transtornos, pois se tratava de cirurgia que despendia recursos e esses parecem sempre ser prioridades para tais instituições. Numa segunda-feira entrei no apartamento era para ser cedo, mas, já eram 09h00min quando começou a tal tricotomia. Meu, é um negócio meio brabo, pois, entraram um enfermeiro e uma enfermeira e gastaram oito lâminas de barbear. É muito estranho além de estar nu ainda te deixam feito um leitão. Pronto, as 11h00min me levaram ao centro cirúrgico quando me lembro dos tchaus dados pela esposa, pai e filhas, fico no vácuo parece um momento eterno, virou lembrança. Chegando a tal sala de cirurgia recebi anestesia troquei algumas palavras com o anestesista vi que chegavam mais médicos, mas de repente, acredito que apaguei. 
Dei por mim as 04h00min da manhã seguinte no CTI, doía tudo, era máscara, tubo, drenos, punções e um desconforto quase insuportável, no entanto, agradeci a Deus, estou vivo, isso é tudo de bom, o pior já passou, mesmo que não se lembre de nada. Depois fiquei sabendo que a cirurgia tinha sido de cinco horas, uma boa cirurgia. Mais tarde recebi visita de minha filha e esposa. Mas, não demorei muito as 13h00min já fui transferido para o apartamento, poxa as coisas andam rápido pensei, no entanto, é um primeiro passo, e lá fui eu. Tudo era meio estranho parecia às vezes estar meio dopado quem sabe ainda era a anestesia e/ou medicação que eram muitas, diga-se de passagem. Logo enfermeiras começaram a fazer parte de minha rotina novamente, desta vez pareceu-me mais compenetradas, preocupadas apenas com o paciente, pra mim isso era bom. Pelo menos a sobriedade do hospital parece transferir-se também aos funcionários. O fato é que lá fiquei até sábado quando tive alta. Acredite já era hora, somente aquela tosse, sim aquela que parece que os pulmões vão pular pra fora, aquela que teu peito sacode e as lágrimas querem participar na história e você tem de esconder, lógico você é durão e tem uma imagem a preservar, aliás, é a minha imagem que todos tem de mim, pois poucos me conhecem realmente. Um momento para recordar é quando o médico chega e fala: Vá pra casa. É maravilhoso, você quer ajuntar tudo e simplesmente vazar, não esquecer, mas, pelo menos sair daquela realidade.
Cheguei em casa, minha casa que bom meu cantinho, pensei em te ver, te sentir, te tocar e eis me aqui. Obrigado meu Deus, muito obrigado. Agora dependia do carinho, amor e estima da família e amigos. Sabe como é bom ter amigos, a vocês meu mais forte e caloroso abraço vocês são essenciais para dar prosseguimento à vida, dar sentido a tudo que passamos e junto com o amor de nossa família se tornam fundamentais. Lá se vão três semanas já retornei ao médico que pediu alguns exames vou fazer nesta semana e levar os resultados, mas, já definiu a data de meu retorno profissional para 25/04/11, que bom era o que queria e assim se deu.
Assim aprendi que tudo que temos não é nosso, sem a vida nada faz sentido, mesmo as dores que não tem preço, as lagrimas de nossos amados, as preces e todo ato de solidariedade precisamos uns dos outros e acima de tudo queiramos ou não a presença do Criador esta presente e manifesta-se em atos e respostas. Lógico não penso precisar de novo passar por isso. Digo tem momentos um pouco dolorosos difíceis de encararmos, mas, o desejo da vida é maior, o desejo de abraçar sua esposa, filhos e amados é muito grande. Fica a lembrança desses momentos. Agora é carregar as cicatrizes físicas ou não, mas, com virtudes que espelham a si. Por isso, espero viver o que tenho a cada dia e quem sabe contribuir com minha experiência a aqueles que assim como eu, é mais um filho de Deus.
 Que Deus sempre seja conosco.
Abraços:
LOURIVAL CAETANO

                        
P S: Algumas observações são para descontrair.

       A todos que de uma forma ou outra estiveram presentes quer fisicamente quer em preces meu Obrigado.

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