MEU INFARTO
“O HOMEM,
nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação.”
JÓ 14:1
Lourival Caetano
MEU INFARTO
De todas as experiências que se tem na vida, a própria
existência da vida quando confrontada com seu possível fim, se acerca de
questionamentos e por si só revela as mais diversas razões para se manter a
vida como uma batalha que se tem de vencer.
Acredito que na maioria das vezes somos teimosos e cremos
ser mais que humanos, que tudo podemos. Mas, quando esses valores são postos em
prova sentimos certa frustração, pois, somos nada mais que seres mortais e bem
mortais. A proximidade com o nosso fim deixam-nos perplexos, impotentes e nada
a fazer. Quem sabe exercer nossa piedade e ver essa piedade em nossos amigos,
conhecidos, parentes e até desconhecidos de certa forma nos conforta. É ai que
saberemos o quanto somos ou não queridos, e quem são nossos verdadeiros amigos.
E claro, exerceremos a Fé. Não há como não pensar em Deus, destino, futuro,
família e afins. Não há certeza, só esperanças que promovem as mais diversas
manifestações no seu interior numa busca para respostas sem respostas, em que
cada pessoa que nos falar terá um argumento diferente e confuso e na grande
maioria atribuindo as causas como vontade de Deus. Óbvio, acredito em Deus, no
entanto, que as causas são somatórias de um período de abstinência de hábitos
corretos e uma maneira de viver mais próxima da realidade que cada indivíduo
tem de ter consigo mesmo e que não busca. No meu caso, não foi diferente, e o
resultado foi um infarto expressivo que vai levar-me a uma cirurgia de coração
com pontes bypass. De um jeito ou de outro, é uma luta pela existência, pela
permanência, por valores e pela pugna a depressão que se acerca. As lágrimas
suas as lágrimas de tantos, as preces suas as preces de tantos. – Quanto é
necessário? Realmente é difícil, somente nossos sentimentos, quem sabe os mais
nobres sentimentos louváveis nos dão a serenidade para continuar e continuar
sempre.
Irei relatar minha experiência, minha particular maneira
de estar nesse universo de paciente, em que aos profissionais de saúde e
atendimento pode caracterizar rotina, mas, para esse que escreve é uma aventura
num mundo estranho e em que não se quer passar várias vezes, basta às
necessárias.
No dia 04 de Fevereiro pela manhã acordei com uma dor no
peito, que foi aumentando, mesmo assim, fui trabalhar como de costume as
06h30min estava na Obra. Chegando lá verifiquei meus e-mails, e por curiosidade
pesquisei; dor no peito e falta de ar,
resposta, corra pro hospital, assim,
não perdi tempo e pedi para meu auxiliar de engenharia que me levasse ao
hospital. Aí começa minha história de infartado. Primeiro documento endereço
etc, etc, e você lá com uma dor no peito que quer te matar, mas você agüenta
pega sua ficha e vai aguardar sua vez, “epa” não vai dar pra agüentar a
chamada, de repente a porta se abre e lá fui eu junto com o senhor da vez, pedi
desculpa e falei pro médico; olha estou com muita dor no peito e falta de ar
tem alguma coisa errada, por favor, dê uma olhada. Aí passou morfina e um monte
de pílulas e fui à enfermaria, onde tomei medicação e colocaram um escalpo na
minha mão esquerda, e fui fazer um ECG, raios-X do coração e exames de sangue,
os dois primeiros foram rápidos, mas o exame de sangue resultado somente depois
de três horas. A dor diminui e voltei para a Obra. Quando se aproximou das dez
horas a dor voltou e voltei ao hospital desta vez sozinho. Entrei fui ver o
resultado de sangue e não estava pronto, voltei à espera, mas a dor continuou a
aumentar, e aí novamente entrei com o paciente da vez pedi novamente desculpa,
mas que não podia mais agüentar. Foi quando agora médica pegou meus exames e
disse espantada: - O senhor esta infartado. Levantou-se e falou; vem comigo. E
lá fui eu prá reanimação, foi quando
me dei conta da situação e não era boa, imediatamente tomei tanta da coisa,
liguei pra casa e pro Eng. de Segurança informando as minhas condições. E ali
foi minha entrada num mundo chamado paciente e ter o contato de como as coisas funcionam
nesse tão particular universo hospitalar.
Bem, fora a correria das enfermeiras, que chega ser interessante, é um
conjunto e uma profusão de gente em sua volta, mas, elas têm em comum os
gestos, trejeitos e um vocabulário próprio. Diga-se de passagem, pareceu-me
existir uma concorrência, talvez nem elas se dêem conta, porém, sempre terá
alguém de alguma maneira chamando a atenção para si, quer seja na maneira de
atender, comportar ou ainda em suas vaidades; roupas, sapatos, bolsas e
acessórios. Bem, não posso esquecer-me do médico, sim aquele ser que assina e
confere e que todos babam por ele (parece que ele também gosta), assisti tudo e
tudo lhe é normal.
Bom, voltemos ao quadro clínico. Estabilizei e ao
anoitecer fui levado a UTI. Um
grande salão com quarenta leitos, um verdadeiro formigueiro, e digo funciona,
ainda bem, para nosso bem, funciona. Assim como na reanimação aquele universo
era conhecido somente nos contos e prosas e que agora era minha realidade, eis
me aqui entre tantos iguais e desiguais, um a mais nas estatísticas. Creio que
meu prontuário me acompanhou e comecei a entender a rotina desse universo, como
também as dores de meus companheiros, ali entre conscientes e inconscientes,
entre alguns que ficam e alguns que vão, uns para enfermaria quem sabe casa,
outros ainda para sua morada eterna. Mas, tudo é regido pelos horários, turnos,
remédios, banhos e a tão esperada visita, como é bom ver conhecidos e nossos
entes queridos, é uma sensação de conforto, de alguém se importa conosco e nos
ama. No entanto, nem todos têm visita pelo simples fato que ninguém vem vê-los.
E se vê a dor de abandono, mesmo assim continuam sendo assistidos pelo
Hospital, pelo menos um está lá há anos.
Bem, a mesma maneira que já tinha percebido na
reanimação, confirmei na UTI, as
enfermeiras, técnicas de enfermagem mostram através de seus adereços e acessórios
quem pode mais, algumas querem literalmente furar o piso com seus sapatos e sandálias
e colocam suas bolsas nas bancadas como se fosse exposição, uma vitrine de uma
loja, e lógico todas maquiadas, com raras exceções. E os médicos de sapatos
social em seus lugares como tronos, conferindo e conferindo, creio até que
deveriam dar um oi mais caloroso aos
pacientes que tal entrasse também na rotina para que nós, pacientes, tivéssemos
a possibilidade de vislumbrar a melhoria de cada um. Digo é muito importante
ser pelo menos notado e conscientizado das suas reais condições com certeza deve
haver um tempo para tal. Não sou engenheiro de segurança, mas sapatos de solado
de couro e saltos altos com certeza não são indicados para tal área hospitalar,
além de que por ventura aconteça um sinistro só irá atrapalhar. Porém, as
coisas funcionam de uma maneira geral o suprimento sendo abastecido
continuamente e um vem e vai interminável, e reafirmo fico satisfeito por
termos esse serviço. Passei quatro dias nessa UTI e fui transferido para outro Hospital, pois teria de fazer
cateterismo a ali não se faz. Lá fui eu
de ambulância para a enfermaria desse outro hospital diz que, referência em
cardiologia, fui recebido por uma enfermeira que pediu para que aguardasse o
médico que apareceu dois dias depois, nesse ínterim, era meu desejo sair dali
pois as informações eram muito desencontradas. - O aparelho estava ou não
danificado? Quantas pacientes estavam aguardando tal procedimento? Falavam em
trinta. Mas, a enfermaria era pra quatro pacientes e conversávamos sempre sobre
o destino e a vontade de Deus como referência, vários credos, várias maneiras
de se interpretar a mesma coisa; todos ali eram infartados e aguardavam os
acontecimentos, cada um a seu modo. Eu com certeza não podia esperar e com
muita alegria recebi a notícia que a empresa me transferiria para outro
hospital. Ainda passei três dias ali. E assim se deu, lá fui. Pelo menos tinha
um médico que me acompanhava. Chegando nesse hospital não houve mudanças
substanciais, a mesma comida, o mesmo cheiro, as mesmas roupas, tudo era quase
o mesmo a não ser fisicamente. Lá se foram mais três dias e fui pra casa, mas
antes ainda fiz exame ECG e Eco cardiograma. Fiquei feliz por ir para casa
nesse tempo, tive a companhia de amigos, colegas de trabalho, a empresa e minha
família que tanto demonstrou amor por mim. Quero realmente agradecer a todos
com sincero e forte abraço do fundo do meu coração. Mas, a vida continua, fiz o
bendito cateterismo, e levei o resultado ao médico, não deu outra, duas pontes
serão necessárias, confirmado por outro médico, agora me resta aguardar a data
para a cirurgia. Estou muito ansioso, pois, quero minha vida de volta, e a
terei, essa deve ser a vontade de Deus, que assim seja.
Bem, depois de algum tempo, que na verdade serviu para
minha recuperação parcial recebi sinal verde para realizar os exames
pré-operatórios a qual levei ao médico e acertamos a data da cirurgia. Houve
alguns transtornos, pois se tratava de cirurgia que despendia recursos e esses parecem
sempre ser prioridades para tais instituições. Numa segunda-feira entrei no
apartamento era para ser cedo, mas, já eram 09h00min quando começou a tal
tricotomia. Meu, é um negócio meio brabo, pois, entraram um enfermeiro e uma
enfermeira e gastaram oito lâminas de barbear. É muito estranho além de estar
nu ainda te deixam feito um leitão. Pronto, as 11h00min me levaram ao centro
cirúrgico quando me lembro dos tchaus dados pela esposa, pai e filhas, fico no
vácuo parece um momento eterno, virou lembrança. Chegando a tal sala de
cirurgia recebi anestesia troquei algumas palavras com o anestesista vi que
chegavam mais médicos, mas de repente, acredito que apaguei.
Dei por mim as 04h00min da manhã seguinte no CTI, doía
tudo, era máscara, tubo, drenos, punções e um desconforto quase insuportável,
no entanto, agradeci a Deus, estou vivo, isso é tudo de bom, o pior já passou,
mesmo que não se lembre de nada. Depois fiquei sabendo que a cirurgia tinha
sido de cinco horas, uma boa cirurgia. Mais tarde recebi visita de minha filha
e esposa. Mas, não demorei muito as 13h00min já fui transferido para o
apartamento, poxa as coisas andam rápido pensei, no entanto, é um primeiro
passo, e lá fui eu. Tudo era meio estranho parecia às vezes estar meio dopado
quem sabe ainda era a anestesia e/ou medicação que eram muitas, diga-se de
passagem. Logo enfermeiras começaram a fazer parte de minha rotina novamente,
desta vez pareceu-me mais compenetradas, preocupadas apenas com o paciente, pra
mim isso era bom. Pelo menos a sobriedade do hospital parece transferir-se
também aos funcionários. O fato é que lá fiquei até sábado quando tive alta.
Acredite já era hora, somente aquela tosse, sim aquela que parece que os
pulmões vão pular pra fora, aquela que teu peito sacode e as lágrimas querem
participar na história e você tem de esconder, lógico você é durão e tem uma
imagem a preservar, aliás, é a minha imagem que todos tem de mim, pois poucos
me conhecem realmente. Um momento para recordar é quando o médico chega e fala:
Vá pra casa. É maravilhoso, você quer ajuntar tudo e simplesmente vazar, não
esquecer, mas, pelo menos sair daquela realidade.
Cheguei em casa, minha casa que bom meu cantinho, pensei
em te ver, te sentir, te tocar e eis me aqui. Obrigado meu Deus, muito obrigado.
Agora dependia do carinho, amor e estima da família e amigos. Sabe como é bom
ter amigos, a vocês meu mais forte e caloroso abraço vocês são essenciais para
dar prosseguimento à vida, dar sentido a tudo que passamos e junto com o amor
de nossa família se tornam fundamentais. Lá se vão três semanas já retornei ao
médico que pediu alguns exames vou fazer nesta semana e levar os resultados,
mas, já definiu a data de meu retorno profissional para 25/04/11, que bom era o
que queria e assim se deu.
Assim aprendi que tudo que temos não é nosso, sem a vida
nada faz sentido, mesmo as dores que não tem preço, as lagrimas de nossos
amados, as preces e todo ato de solidariedade precisamos uns dos outros e acima
de tudo queiramos ou não a presença do Criador esta presente e manifesta-se em
atos e respostas. Lógico não penso precisar de novo passar por isso. Digo tem
momentos um pouco dolorosos difíceis de encararmos, mas, o desejo da vida é
maior, o desejo de abraçar sua esposa, filhos e amados é muito grande. Fica a
lembrança desses momentos. Agora é carregar as cicatrizes físicas ou não, mas,
com virtudes que espelham a si. Por isso, espero viver o que tenho a cada dia e
quem sabe contribuir com minha experiência a aqueles que assim como eu, é mais
um filho de Deus.
Que Deus sempre
seja conosco.
Abraços:
LOURIVAL CAETANO
P S: Algumas observações são para descontrair.
A todos que de uma forma ou outra estiveram presentes quer fisicamente
quer em preces meu Obrigado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário