segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Nasce o Ocidente


Nasce o Ocidente
 
Houve um tempo em que não eram somente duas nações que estavam em guerra e sim duas metades do globo (Oriente versus Ocidente), duas filosofias, na verdade dois mundos. E quando uma delas venceu deixou-nos um discurso é esse discurso que transcreverei, pois, julgo ser nossa essência, ali nós nascemos, o Ocidente nasceu. Eis as palavras:
 
“Orgulhemo-nos do que somos e do que podemos ser, se damos valor a nossa liberdade e à boa opinião dos pósteros.
Somos livres ou capazes de sê-lo tanto no espírito quanto em nossas instituições.
Essa liberdade foi duramente conquistada e pode ser facilmente perdida, mas não se formos vigilantes.
E, em prol dessa vigilância, lembremos o que somos.
Nossos assuntos estão nas mãos da maioria, não da minoria.
Existe justiça igual para todos em suas disputas particulares, mas também se reconhece o direito da excelência.
E quando um cidadão se distingue de alguma maneira, ele é nomeado para o serviço público não como uma questão de privilégio, mas como recompensa pelo mérito.
A pobreza não é impedimento, e um homem pode beneficiar seu país por mais modesta que seja sua condição.
Não há exclusividade em nossa vida pública, e em nossos assuntos particulares não temos suspeitas mútuas, nem nos aborrece nosso próximo ao fazer como lhe apraz;
Não o olhamos enviesado, o que, embora inofensivo, não é agradável, pois valorizamos a justiça e a tolerância em todas as coisas.
Assim como não sofremos coação em nossa esfera privada, tenhamos também uma atitude nobre em nossas ações públicas,
Onde somos impedidos de agir mal por respeito às leis, com especial consideração por aqueles incumbidos da proteção dos fracos e ofendidos,
Bem como por aquelas leis não escritas que trazem a um transgressor a reprovação do sentimento geral.
Tampouco deixamos de nos proporcionar muitos tipos de distração de nossa labuta; temos nossas recreações ao longo do ano;
Nossas casas são seguras e confortáveis; o prazer que sentimos diariamente em todas essas coisas traz-nos alegria.
Graças à grandeza de nossa civilização, os frutos de toda a terra se derramam sobre nós; assim, gozamos os bens de outros climas tal como do nosso próprio.
Amamos o belo e o bom, e lembremos que nossa força consiste não só em nossos poderes de deliberação,
Mas também no conhecimento que se mantém e que se obtém com a deliberação que antecede a ação.
Pois temos o peculiar poder de pensar antes de agir e, também, de agir,
Ao passo que outros homens são corajosos por ignorância, mas hesitam à reflexão.
E certamente devem ser estimados como os mais bravos corações aqueles que, tendo a mais clara percepção das dores e dos prazeres da vida, não recuam diante dos desafios.
Ao fazer o bem, somos diferentes dos outros; fazemos nossos amigos prestando, não recebendo favores.
Aquele que concede um favor é o amigo mais sólido, por que guarda, por gentileza, viva lembrança da obrigação;
Mas quem recebe o favor tem sentimentos mais frios, porque sabe que, ao retribuir a generosidade alheia, não estará ganhando gratidão, e sim apenas pagando uma dívida.
Apenas nós praticamos o bem para com nossos próximos não por cálculo e interesse, mas na confiança da liberdade e com coração aberto e destemido.
Que possa ter o indivíduo, em sua própria pessoa, o poder de se adaptar às mais variadas formas de ação com a máxima versatilidade e cortesia.
Não são palavras vazias e fugazes, e sim um conselho de sabedoria, que se funda na posição à qual tais qualidades elevam o estado da humanidade.
Pois, na hora do julgamento, os melhores são sempre superiores ao que se diz deles.
E o empenho dos melhores certamente não passará despercebido; existem grandes monumentos de suas realizações, que fazem deles a maravilha de todos os tempos.
Quão raros são aqueles cujas ações, postas na balança, se revelaram iguais à sua fama!
Pois mesmo aqueles que falharem em outros aspectos podem com justiça invocar o empenho que dedicaram ao bem; assim, com o êxito, apagam os fracassos.
Assim procederam todos os que se dedicaram a realizar, desenvolver ou defender algo digno, de qualquer espécie;
Mereceram o nome de ser humano e de amigo. Não há como expressar o valor disso em palavras.
Qualquer um pode discursar sem fim sobre as vantagens da coragem e da determinação,
Mas, ao invés de apenas ouvir discursos, mantenhamos diariamente nossos olhos postos no bem, até nos preenchermos de amor por ele.
E então teremos ajudado a cumprir a promessa encerrada na vitória dos gregos sobre os persas:
Sermos livres na honra e sábios na liberdade”.
Quiça essas fossem essas nossas palavras. Legado que nos deixou os Gregos vencedores sendo o sentimento pela liberdade indiscutivelmente o maior.
Lourival Caetano
 
P S: Texto extraído O Bom Livro pag. 402 #16 aos 52. (A. C. Grayling)

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